"Enquanto não conseguirmos suprimir qualquer uma das causas do desespero humano, não teremos o direito de tentar a supressão dos meios pelos quais o homem tenta se livrar do desespero."
Antonin Artaud

terça-feira, 4 de maio de 2010

Dez clássicos para reler (por Pedro Maciel)

Hoje, me deparei com esse texto e, além da súbita percepção de que ele poderia adornar minha agenda, tive vontade repentina de compartilhá-lo com vocês, amigos.

Outro comentário que julgo importante para esse instante que escrevo é que este site, onde encontrei o texto referido, é excepcional - contém muita coisa boa (boa de verdade, a julgar pelo nome): http://www.cronopios.com.br. Vale tê-lo como favorito daqueles que se lê quase todos os dias.

Postagem "copiada" por: Marcus de Barros - contribuição para o Peixebola. Agradeço o autor do texto que segue, mesmo sem o conhecimento do mesmo - agradecem os interessados.

-------------------------------------------------------------------------------


Dez clássicos para reler


Por Pedro Maciel


O que entendemos como um livro clássico? Este adjetivo descende do latim classis, frota, ordem. Chama-se de clássico um livro que “as gerações dos homens, urgidos por razões diversas, lêem com prévio fervor e com uma misteriosa lealdade”, anotou Jorge Luis Borges. O clássico nos ensina algo universal que, de certa forma, nos liga a uma vivência particular. Reler o clássico é descobrir nas dobras da memória não só a história do passado mas sobretudo o enredo de um provável futuro das relações humanas.

“Ulisses”, romance-experiência de James Joyce, escrito entre 1914-1921, é uma obra fundamental da ficção do século XX. Joyce ousou inventar uma prosa-poética que ainda hoje é vista com estranhamento pelas cabeças normais do público leitor. “Ulisses” recupera a linguagem em seu estado natural, anterior à gramática. O ritmo não é medida _ como muitos pensam _ mas tempo original e, ainda, uma maneira de ver o mundo.

Outro clássico que se revela inédito a cada releitura é “Grande Sertão Veredas” (1956), de Guimarães Rosa. Este romance é o grande marco inovador na literatura brasileira de todos os tempos. Rosa retrata um país arcaico, sem passado ou futuro, um país que ensina quem somos. O texto é uma reescritura dos romances medievais (modelo barroco), épico, discussão entre Deus e o diabo.

“Os Sertões”, de Euclides da Cunha, é um livro que nos ensina algo que não sabíamos, descobrimos nele algo que sempre soubéramos ou acreditávamos saber... Euclides, com sua escrita virtuosística, faz uma interpretação histórica do País a partir da cultura do sertão. Canudos é uma idéia euclidiana da desilusão da utopia republicana. Narrativa da realidade social e cultural de um povo deslumbrado, cego pela fé religiosa e que preferiu se consumir no fogo, para reviver a maldição bíblica.

Memórias Póstumas de Brás Cubas” (1880), de Machado de Assis, é um exemplo de clássico que precisou de tempo para encontrar o seu lugar certo. O romance em forma de monólogo autobiográfico é um divisor na obra de Machado. O bruxo do Cosme liberta-se do romantismo e inaugura o estilo realista que aborda temas como adultério, hipocrisia e egoísmo. Mas Machado rejeita tanto o determinismo social quanto a prosa descritiva dos realistas, segundo os críticos. A prosa machadiana, narrativa não-linear, original e radicalmente cética, nos revela a dimensão fundamental do tempo, dá sentido à vida banal e ordinária através da experiência humana.

Segundo Ezra Pound, mestres são os “homens que combinaram um certo número de tais processos e que os usaram tão bem ou melhor que os inventores”. Franz Kafka é um dos mestres deste século, autor de “Metamorfose”, texto singular da literatura universal. O anti-herói Joseph K. nos leva a descobrir a história dos pesadelos do mundo moderno. A subordinação e as situações intoleráveis são as idéias centrais da narrativa. Pode-se afirmar que este romance expressa o fantástico, o incompreensível, a opressão, o estranho e a sátira ao invés do patético. O texto desmistifica a organização social que se perpetua, graças a paciência dos subordinados que morrem sem imaginar os seus direitos.

Outro livro que merece ser relido, (clássico é o livro que estamos sempre relendo...), é “As Mil e Uma Noites”, texto estabelecido a partir dos manuscritos originais por René R. Khawam. Na época provável em que se redigiram as “Mil e Uma Noites” (século XIII), o Islã atravessava uma crise, o poder era contestado e havia ameaças nas fronteiras, segundo historiadores. As aventuras da bela Xerazade e os contos narrados para entreter seu interlocutor, o sultão Xeriar, é um conjunto de novelas exemplares situado entre os “livros permanentes” da história da literatura.

Eupalinos ou O arquiteto _ Escritos de circunstância” (1921), de Paul Valéry, reflete sobre o processo de criação arquitetônica. Valéry, poeta-crítico, cria um clássico a partir de um diálogo imaginário entre Sócrates e Fedro. “Dialogue des morts”, era como seria chamado o texto em sua primeira edição. Fedro e Sócrates habitam nas noites alucinadas do inferno. Pairam sobre eles a idéia da reflexão dos mortos. Uma idéia assombrada. Conversam sobre as limitações e emoções de uma vida que poderia ter sido.

“Uma Temporada no Inferno & Iluminações”, de Arthur Rimbaud, inaugurou a literatura do desespero, do assombro, do inconformismo, da beleza perdida, do visível e do imaginário. Segundo George Steiner, Rimbaud “deixou sua impressão digital na linguagem, no nome e no temperamento do poeta moderno, como Cézanne o fez com as maçãs”.

Virginia Woolf é conhecida sobretudo como uma romancista que aperfeiçoou modernas técnicas de narrar, como as do monólogo interior e do fluxo de consciência. “Orlando”, de Woolf, é o romance mais popular da escritora, mas o texto mais inovador e revolucionário em termos de forma é “As ondas”, em que o cotidiano dispensa enredo, ação, e surge de puras sensações.

Outro clássico da literatura moderna é “O Estrangeiro”, de Albert Camus. O escritor franco-argelino explora os temas que sempre o atormentaram, como a solidão, o destino do homem diante do mundo indiferente e o absurdo da condição humana. Camus descreve a “doença do espírito” de que sofrem os tempos atuais. “O absurdo nasce da confrontação do apelo humano com o silêncio despropositado do mundo”. Através do “absurdo” o autor decifra o verdadeiro sentido da vida. Mas a vida, segundo Camus, será vivida melhor ainda se não tiver sentido.

Pedro Maciel é autor do romance Como deixei de ser Deus (Editora Topbooks, 2009). Segundo o filósofo e poeta Antonio Cícero, “de certo modo, é o tempo o verdadeiro tema desse livro, que pode ser considerado uma espécie de Bildungsroman, isto é, de romance de educação ou formação. Pode-se dizer que é justamente a intensa capacidade de instigar a sensibilidade, o pensamento e a imaginação que constitui um dos maiores encantos de Como deixei de ser Deus”. Já o escritor Moacyr Scliar diz que, “Como deixei de ser Deus foi para mim uma gratíssima surpresa, pela originalidade, pela profundidade e pela transcendência do texto”. Pedro Maciel, segundo o poeta e tradutor Ivo Barroso, "nos faz acreditar que a literatura brasileira possa ainda apresentar alguma coisa de novo que, curiosamente, remonta à própria arte de escrever: o estilo. O seu primeiro romance A Hora dos Náufragos (Bertrand Brasil, 2006) perturba pela força da linguagem. O que há de mais próximo desse livro seriam os famosos fusées de Baudelaire". E-mail: pedro_maciel@uol.com.br

------------------------------------------------------------------------------------------------


**PS.: confesso que fiquei fortemente tentado a ler a obra deste Pedro Maciel, a julgar pelo que há neste último parágrafo.

(um eu, Marcus de Barros, conjecturando madrugada adentro...)

sábado, 1 de maio de 2010

A Suposta Existência

A Suposta Existência

Como é o lugar quando ninguém passa por ele?
Existem as coisas
sem ser vistas?

O interior do apartamento desabitado,
a pinça esquecida na gaveta,
os eucaliptos à noite no caminho
três vezes deserto,
a formiga sob a terra no domingo,
os mortos, um minuto
depois de sepultados,
nós, sozinhos
no quarto sem espelho?
Que fazem, que são
as coisas não testadas como coisas,
minerais não descobertos - e algum dia
o serão?

Estrela não pensada,
palavra rascunhada no papel
que nunca ninguém leu?
Existe, existe o mundo
apenas pelo olhar
que o cria e lhe confere
espacialidade?

Concretitude das coisas: falácia
de olho enganador, ouvido falso,
mão que brinca de pegar o não
e pegando-o concede-lhe
a ilusão de forma
e, ilusão maior, a de sentido?

Ou tudo vige
planturosamente, à revelia
de nossa judicial inquirição
e esta apenas existe consentida
pelos elementos inquiridos?
Será tudo talvez hipermercado
de possíveis e impossíveis possibilíssimos
que geram minha fantasia de consciência
enquanto
exercito a mentira de passear
mas passeado sou pelo passeio,
que é o sumo real, a divertir-se
com esta bruma-sonho de sentir-me
e fruir peripécias de passagem?

Eis se delineia
espantosa batalha entre
o ser inventado
e o mundo inventor.
Sou ficção rebelada
contra a mente Universal
e tento construir-me
de novo a cada instante, a cada cólica,
na faina de traçar
meu início só meu
e distender um arco de vontade
para cobrir todo o depósito
de circunstantes coisas soberanas.

A guerra sem mercê, indefinida
prossegue,
feita de negação, armas de dúvida,
táticas a se voltarem contra mim,
teima interrogante de saber
se existe o inimigo, se existimos
ou somos todos uma hipótese
de luta ao sol do dia curto em que lutamos.

De A Paixão Medida, 1980

Carlos Drummond de Andrade







marcus de barros

domingo, 25 de abril de 2010

Visita ao dicionário

Para refletir:

sinestesia (DO POETA)
(grego sunaísthesis, -eos, sensação simultânea, percepção simultânea)
s. f.
1. Produção de duas ou mais sensações sob a influência de uma só impressão.
2. Ret. Figura de estilo que combina percepções! de natureza sensorial distinta (ex.: sorriso amargo).

cinestesia (DO ATOR)
(cine- + -estesia)
s. f.
Sensibilidade nos movimentos.

cenestesia (DO SER)
s. f.
Sentimento vago que, independentemente dos sentidos, existe no nosso ser.





Marcus de Barros.

terça-feira, 20 de abril de 2010

Primeiro há a mudança interna, estrutural, e só depois muda-se a face, a aparência.

.

Algo mudou dentro
em mim.
Como extensão, mudo fora
mundo fora, mudo - de mudar
e mudo - de voz
muito porém, com fala - contradicto
mesmo que seja calada
escrita.
Pode-se gritar pela escrita?
Sim, pode-se. E grito

Algo em mim mudou
forte.

Como extensão, pequena
porém, considerável, relevante
mudo também esta cara - virtual
Mudo de c(ô)r, mudo de c(ó)r
mudo de cara.
A mudança me é cara
é-me cara, não acaba
não pára. Para quê?

Se antes era barba, agora é pele
se antes preto, agora claro
se antes mudo, agora fala
se antes antes, agora agora.
Depois sempre virá, como agora.
Preto outra vez, barba nova longa
pele, cara, agora
mudo - de mudar.

Não à morte deste espaço-pedaço
considerei-a, porém
resisto
e faço viver - vivo. Revisto:
Re-visto.
Pensei até em mudar de nome - o espaço (este)
pedaço: eu
mas nome não muda
o esqueleto continua...
o aço é traço e braço.
Fica, mesmo quando muda.

O movimento, motor da vida
a mudança, condição de existência:
água parada apodrece, fede.
O caos, a desordem, a onda
são necessários ao vivo
o fluxo, o fluxo, uso
mudo - de mudar
tensão, limite: transcendência.
Como a poesia leva a linguagem ao limite
estende, expande, entende
força-a a mudar, eu mesmo faço o mesmo
a mim e ao meu mundo
mudo-de-mudar, não mudo-de-calar
falo, de falar:
Diz-se e vive-se:
mudo.


(Vida longa à poesia!)



ps.: meu maxilar treme...

ps2.: As fotos que ilustram o fundo do título deste espaço - blog - são uma homenagem ao fotógrafo Irving Penn. As personalidades são, respectivamente, da esquerda para a direita: S. J. Perelman, Pablo Picasso, Nadja Auermann, Salvador Dalí e Woody Allen.

ps3.: O Catador (de Manoel de Barros)


"Um homem catava pregos no chão.
Sempre os encontrava deitados de comprido,
ou de lado,
ou de joelhos no chão.
Nunca de ponta.
Assim eles não furam mais – o homem pensava.
Eles não exercem mais a função de pregar.
São patrimônios inúteis da humanidade.
Ganharam o privilégio do abandono.
O homem passava o dia inteiro nessa função de catar pregos enferrujados.
Acho que essa tarefa lhe dava algum estado.
Estado de pessoas que se enfeitam a trapos.
Catar coisas inúteis garante a soberania do Ser.
Garante a soberania de Ser mais do que Ter."

ps4.: Sinto-me um catador; que ganhou os globos oculares e a faculdade da visão há pouco, como que apreciando e gozando das primeiras imagens formadas em suas retinas; como se eu enxergasse apenas há algum tempo... toda minha vontade se expande em direção ao universo da busca do sentido, seja através de imagens ou de sensações/experiências... aliás, ver é a melhor forma de viver. eu vim ver. vamos?



marcus de barros.

Leminski

Deixo-o - ou melhor, ele se deixa - falar por suas próprias palavras. 
Não cabe a mim descrevê-lo, classificá-lo, qualificá-lo... 
Apenas o bebo e o sinto - e mudo dentro e fora...














ICEBERG

Uma poesia ártica,
claro, é isso que eu desejo.
Uma prática pálida,
três versos de gelo.
Uma frase-superfície
onde vida-frase alguma
não seja possível.
Frase, não. Nenhuma.
Uma lira nula,
reduzida ao puro mínimo,
um piscar do espírito,
a única coisa única.
Mas falo. E, ao falar, provoco
nuvens de equívocos
(ou enxame de monólogos?).
Sim, inverno, estamos vivos.

(Paulo Leminski)

------------

moinho de versos
movido a vento
em noites de boemia

vai vir o dia
quando tudo que eu diga
seja poesia

(Paulo Leminski)

------------

a chuva vem de cima

correm
como se viesse atrás

(Paulo Leminski)

------------

ps.: me recordo do Quintana (Mário), quando este diz:


"A Coisa

A gente pensa uma coisa, acaba escrevendo outra e o leitor entende uma terceira coisa... e, enquanto se passa tudo isso, a coisa propriamente dita começa a desconfiar que não foi propriamente dita."

-----------


marcus de barros.