"Enquanto não conseguirmos suprimir qualquer uma das causas do desespero humano, não teremos o direito de tentar a supressão dos meios pelos quais o homem tenta se livrar do desespero."
Antonin Artaud

domingo, 5 de outubro de 2008

Embriaguem-se (Charles Baudelaire)


"EMBRIAGUEM-SE

    É preciso estar sempre embriagado. Aí está: eis a única questão. Para não sentirem o fardo horrível do Tempo que verga e inclina para a terra, é preciso que se embriaguem sem descanso.

    Com quê? Com vinho, poesia ou virtude, a escolher. Mas embriaguem-se.

    E se, porventura, nos degraus de um palácio, sobre a relva verde de um fosso, na solidão morna do quarto, a embriaguez diminuir ou desaparecer quando você acordar, pergunte ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo que flui, a tudo que geme, a tudo que gira, a tudo que canta, a tudo que fala, pergunte que horas são; e o vento, a vaga, a estrela, o pássaro, o relógio responderão: "É hora de embriagar-se! Para não serem os escravos martirizados do Tempo, embriaguem-se; embriaguem-se sem descanso". Com vinho, poesia ou virtude, a escolher."

Charles Baudelaire.






essa já foi postada neste espaço virtual certa vez.
mas senti que merecia uma releitura.
para ver o entendimento, talvez, se refazer.

marcus.

PS.: IMAGEM>> Caravaggio - S Jeronimo

2 comentários:

rodrigo disse...

uma prática que há muito venho exercendo, este tema.

Tomo pra mim novamente estas palavras e reflito-as na minha cara, nesta etapa, percebendo então coisas já diferentes. É o propósito da releitura, perceber onde há "teias de aranhas", e o que se ocupa no novo espaço. Eu fico aqui rapidamente pensando com minhas palavras, as ferramentas que cultivo, e até mesmo as que saturado, enjoado, continuo a praticar. Penso na volta que dei até então como poder sempre caminhar até a embriagues e poder voltar sempre que o quiser a naturalidade.

Naturalidade: Levantar-se junto ao sol, saborear alguma fruta, perceber o animal que se cria, observar o dia esquentar sentado, deitado numa rede, com música, sem música, com musa, sem musa. Apreciar a tão massacrada lucidez. A BELEZA da vida onde há.

Tomo pra mim como pauta neste momento o propósito de "poder voltar". Poder voltar da embriaguez, e não somente sê-la. Aos poucos vou "sentindo mais" em pensar isso, isso que parece que meu corpo não deseja unicamente ser, ser sem poder voltar.
Talvez o que eu esteja pra concluir é que o "lado escuro" -embriagado- que há em mim, na grande parte dessa juventude que brilho, esteja prestes a mudar rente ao sol, tornando-se um ponto de visita do meu próprio ego, deixando de ser o idealizado aspecto íntegro de desconstrução, ou destruição...

talvez eu esteja apenas querendo imitar o Homem de idade que degusta sua embriaguez na varanda da sua casa, dando a seu calendário um dia de embriaguez para sete de lucidez. É isso que se traduz por "lado escuro", que escuro não por ser mal, é escuro pelas incertezas, pelo reposicionamente direcionado a coisas já estabelecidas de maneira tão ousada. O lado escuro é duvidoso, o "Lado maior", os 7 dias, é dormir cedo e cedo acordar pra então se "embriagar" com o sol, com a chuva, com o frio, com a correria do cão no jardim, com a cadeira de balanço e um livro cheio de idéias, com uma mesa com refeição e corações afins.

Rodrigo

Gilson disse...

Posso talvez estar embreagado aos olhos dos que me veem, mas na verdade eu nunca me senti tao lucido e consciente em toda minha vida. Vivo mais em meus pensamentos do que em qualquer espaço fisico, e bebo arvores, luas, sorrisos e gestos de amor com olhos de quem contempla algo grande. Estou mesmo é embreagado em plena lucidez, em clareza de pensamento, e nao desejo perder isso por nada.