"Enquanto não conseguirmos suprimir qualquer uma das causas do desespero humano, não teremos o direito de tentar a supressão dos meios pelos quais o homem tenta se livrar do desespero."
Antonin Artaud

terça-feira, 31 de julho de 2007

Bergman





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"Den här hemsidan är tillägnad Ingmar Bergman, en av film- och teatervärldens erkänt bästa regissörer. Bergman har inte varit inblandad i skapandet av denna hemsida, utan allt är högst inofficiellt. Vad gäller Bergmans biografi kan jag därför utan skönmåleri objektivt granska händelser i hans liv."

"Ingmar Bergman found bleakness and despair as well as comedy and hope in his indelible explorations of the human condition."

"Ernst Ingmar Bergman, né à Uppsala le 14 juillet 1918 et mort le 30 juillet 2007 sur l'île de Fårö, est un metteur en scène de théâtre, scénariste, et réalisateur de cinéma suédois. Il s'est imposé comme l'un des plus grands réalisateurs de l'histoire du cinéma en proposant une œuvre s'attachant à des thèmes métaphysiques (Le Septième Sceau), à l'introspection psychologique (Persona) ou familiale (Cris et chuchotements, Fanny et Alexandre) et à l'analyse des comportements du couple (Scènes de la vie conjugale). Il est le seul cinéaste à avoir obtenu la Palme des Palmes au Festival de Cannes en 1997."

"Ingmar Bergman (1918- ) - O cinema transcendental

A obra de Ingmar Bergman compõe um dos mais ricos e essenciais capítulos da história do cinema. Como poucos, o diretor se apropriou da linguagem para realizar um conjunto significativo que transcende a própria experiência cinematográfica. Abordando temas intrínsecos à existência humana – como desejo, morte e religiosidade –, o cineasta rompeu as fronteiras do cinema sueco e atingiu a universalidade."
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Para falar sobre Bergman, as abordagens podem ser diversas, as línguas quaisquer e a linguagem como quer que venha, porém todas, para serem verdadeiras, devem vir falando da grandiosidade de um artista que descobriu na sétima arte o prazer de desnudar a profundidade intrínseca humana que todos nós carregamos. Eu quereria escrever bastante e à altura sobre esse mestre do cinema que faleceu ontem, mas tudo que escrevesse aqui não alcançaria o que Bergman mecere como agradecimento ou dedicatória.
Bergman "foi" mas não "foi".

- Marcus.

quinta-feira, 26 de julho de 2007

Ofuscante Sonoro


Ludwig van Beethoven

apenas para marcar, o que porta a que mais aprecio com toda devoção da, melodia do plano classico( e do profundo "ouvir emoções"), e introdutor para mim. Marcou muitos momentos dessas cores. Marcu, falta unzélipê do monstro hein?

domingo, 22 de julho de 2007

TABACARIA


(Preciso pedir licença para escrever algo antes do que virá abaixo.
"Com licença". "Só queria dizer, sobre esse poema, que quero lê-lo até que o vasto sentido que encontrei nele esteja tão à mente que não faça mais sentido algum, quero lê-lo até que meus sentidos se confundam com o (des)entendimento que ainda me resta e já não baste mais nem ouvidos nem olhos para trazer pra dentro o que Pessoa algum dia escreveu e que de alguma maneira me espanta por parecer já estar "aqui" dentro desde que ninguém tinha dito nada a respeito. Quero lê-lo até não saber mais lê-lo, até não saber sequer que o li algum dia. Grato.")

- Marcus T.



TABACARIA
Álvaro de Campos (F. Pessoa)


Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.
(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)
Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente
Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.
Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.
Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.
Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.
(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.

15-1-1928

segunda-feira, 16 de julho de 2007

Outros Pessoas


Os outros Pessoas

Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos


O LUAR ATRAVÉS DOS ALTOS RAMOS

O luar através dos altos ramos,
Dizem os poetas todos que ele é mais
Que o luar através dos altos ramos.

Mas para mim, que não sei o que penso,
O que o luar através dos altos ramos
É, além de ser
O luar através dos altos ramos,
É não ser mais
Que o luar através dos altos ramos.

(Alberto Caeiro, O Guardador de Rebanhos, 1911-12)


POUCO ME IMPORTA

Pouco me importa.
Pouco me importa o quê? Não sei: pouco me
[ importa.

24/10/1917
(Alberto Caeiro, Poemas Inconjuntos, 1913-15)


NADA FICA DE NADA

Nada fica de nada. Nada somos.
Um pouco ao sol e ao ar nos atrasamos
Da irrespirável treva que nos pese
Da humilde terra imposta,
Cadáveres adiados que procriam.

Leis feitas, estátuas vistas, odes findas —
Tudo tem cova sua. Se nós, carnes
A que um íntimo sol dá sangue, temos
Poente, por que não elas?
Somos contos contando contos, nada.

14/02/1933
(Odes de Ricardo Reis)


CRUZ NA PORTA DA TABACARIA

Cruz na porta da tabacaria!
Quem morreu? O próprio Alves? Dou
Ao diabo o bem-'star que trazia.
Desde ontem a cidade mudou.

Quem era? Ora, era quem eu via.
Todos os dias o via. Estou
Agora sem essa monotonia.
Desde ontem a cidade mudou.

Ele era o dono da tabacaria.
Um ponto de referência de quem sou.
Eu passava ali de noite e de dia.
Desde ontem a cidade mudou.

Meu coração tem pouca alegria,
E isto diz que é morte aquilo onde estou.
Horror fechado da tabacaria!
Desde ontem a cidade mudou.

Mas ao menos a ele alguém o via,
Ele era fixo, eu, o que vou,
Se morrer, não falto, e ninguém diria:
Desde ontem a cidade mudou.

(Poesias de Álvaro de Campos)

- Marcus
(foto: Gaião)

sábado, 14 de julho de 2007

quarta-feira, 11 de julho de 2007

...




















































Um passeio montado em uma bicicleta. Não tão longe de casa.
Quão bela é a natureza.
Belo também é o que ela oferece ao nosso corpo, aos nossos olhos, à nossa mente.
Ela não mente.

- Marcus

segunda-feira, 9 de julho de 2007

Variações de um Eco em Si Menor

Escuro, mudo, negro
Com certeza irei voltar
Para onde eu vim a ser
No começo, bem lá no começo

Quando a saga se iniciou
E só restava seguir em frente
Pra da uma passeada,
Na órbita da existência

O ciclo de uma vida
Com direito a muitas mortes
Construir desconstruindo
Desfragmentando por camadas

Voltarei então,
A ser quem já não sou
A ser o que já fui

Para ser um ser não-ser
Como uma gota d’água
Que se dilui no oceano
Para ser o próprio oceano

Porque o espelho delimita
Meu corpo, a contemplação
De uma pseudo-unidade

Enquanto mais adentro
Mutiplicam-se os “eus”
Que não cheguei a conhecer

No mais, sou colecionador
Quero seqüestrar os “eus”
Do inconsciente, pendura-los
Pra secar em meu varal

Quando estão bem enxutos
Os visto com quem acaba
De ganhar uma nova camiseta

E saio pra caminhar
Expondo a mais nova
Versão de mim mesmo
Revista e atualizada

domingo, 8 de julho de 2007

Filme(s)!




Gostei muito de ter assistido ao filme, e recomendo. Além de poder sentir-se próximo da passagem dessa mulher extraordinária pelo que se demonstra sobre si durante sua existência e após sua morte, o filme é uma produção curiosa e atraente ao seu longo, do limiar ao fim, longe do que poderia ser um exagero achei distante de ser uma produção somente voltada às cotas posteriores ou somente a prêmios. Muito bom.

Frida Kahlo (Salma Hayek) foi um dos principais nomes da história artística do México. Conceituada e aclamada como pintora, ele teve também um casamento aberto com Diego Rivera (Alfred Molina), seu companheiro também nas artes, e ainda um controverso caso com o político Leon Trostky (Geoffrey Rush) e com várias outras mulheres.

Agradeço a, MT, por ter me apresentado suas obras esplendidas, PROFUNDAS!

João Cabral de Melo Neto


Poema de João Cabral de Melo Neto do livro Agrestes, 1981-1985

O Último Poema

Não sei quem me manda a poesia

nem se Quem disso a chamaria.

Mas quem quer que seja, quem for

esse Quem (eu mesmo, meu suor?),

seja mulher, paisagem ou o não

de que há preencher os vãos,

fazer, por exemplo, a muleta

que faz andar minha alma esquerda,

ao Quem que se dá à inglória pena

peço: que meu último poema

mande-o ainda em poema perverso,

de antilira, feito em antiverso.

aberto & infinito

Eu senti sair de mim, um absurdo às palavras.
E o que senti, não pude conter.
Eu percebi minha emoção quando já não distingui mais o que diante de mim se fazia, eu vi borrar, eu vi minha pele contrair, eu SENTI a lágrima cair.
Eu me estranhei, eu não soube materializar meu próprio ardor, eu não pude guiar.
Eis um amor que eu não escolhi, eis a emoção e um desconsolo por não sê-la.
Um vislumbre, um encanto, um sentir que não coube em si.
Foi um tempo para ser o espaço entre dois, um momento para se prestar com todo anseio
ao rumo perdido, ser o perdido, estar perdido. Após sentir perceber-se tão vago, sentir confortável em não ser sentido algum, apenas o caminho por quais todos eles passam extraviando de mim o que suporto o que possuo esmiuçando minha pequenez. Esta é uma tentativa vergonhosa, a grandiosidade que não se contém traz a ressaca no homem por não poder e de tudo querer definir, e desvendar. Talvez inapto às palavras, talvez incoerente para a expressão, este é um ensaio sem fim de um desejo de expressão que de tanto emocionar me levou ao chão, mais afásico, o limite foi o contorcer-se de um orgasmo (extremo), o ponto cume foi à exaltação e apenas perceber que “tudo isso” é apenas uma tradução.
...

sábado, 7 de julho de 2007

Les amants réguliers

Amantes Constantes (Les amants réguliers),
de Philippe Garrel (França, 2005)
por Francis Vogner dos Reis

Nós que amávamos tanto a revolução

Indagado certa vez sobre o quanto a sua obra havia mudado, Caetano Veloso respondeu que suas preocupações sempre foram, e ainda são, as mesmas: ele ainda cantava o amor e a liberdade. Quem conhece a obra de Caetano sabe que ela mudou, mas não seus princípios norteadores, no caso, como ele mesmo diz, o amor e a liberdade. E certamente são eles que movimentaram as revoluções estéticas e comportamentais mais estimulantes (só pra citar duas das mais relevantes, o tropicalismo e a nouvelle vague). Ambas mudaram a música e o cinema? Sim, mas não instituíram uma nova ordem, até mesmo porque o “amor e a liberdade” (que podemos dizer, são temas ainda recorrentes em Godard também) não carecem de legitimação.

É isso o que faz a diferença entre um filme como Amantes Constantes, de Philippe Garrel e Os Sonhadores, de Bernardo Bertolucci – ambos filmes que, além de ter o ator Louis Garrel, olham para maio de 1968. O filme de Philippe Garrel (pai de Louis) se preocupa em apreender a experiência daquele tempo e entender o momento seguinte, as implicações da vida, do amor e da política (os três juntos) depois da exasperante intensidade libertária das barricadas de Paris. O de Bertolucci tenta fazer um inventário do que foi maio de 1968, mas tendo-o como uma experiência inversa do que o imaginário coletivo supõe, uma desmistificação moralista do ponto de vista do “fim da história”, uma instituição da decadência como maneira de expurgar o que considera fracasso. É verdade que a concepção que Bertolucci tem da história sempre pareceu um pouco problemática, mesmo em sua obra-prima Antes da Revolução, que apesar da vitalidade, já tinha aquela pontinha do gosto italiano pela decadência.

Mas Amantes Constantes é muito mais do que uma antítese de Os Sonhadores. Talvez o mais belo filme do ano, trilha um caminho diferente de muitos dos filmes contemporâneos que se voltam ao passado pra falar de um episódio político. Mas, para começo de conversa, convém apresentar o ilustre desconhecido: o diretor Philippe Garrel filmou quase trinta filmes, entre curtas e longas-metragens, desde 1964. Ele é considerado um dos principais cineastas franceses pós-nouvelle vague ao lado de André Techiné, Maurice Pialat e Chris Marker. No entanto, nunca teve um filme seu no circuito comercial brasileiro. Por que? Só Deus sabe. Este seu mais recente filme, Amantes Constantes, é a estréia oficial do cineasta no Brasil. Quem não viu seus filmes no exterior (ou não baixou na Internet) não tem muitos termos de comparação entre este seu último trabalho e os anteriores. De qualquer maneira Amantes Constantes dá conta do prejuízo.

Nele, Garrel fala de amor e liberdade, temas de sempre, e aqui (em maio de 68 em Paris) é onde se encontram. Amantes Constantes une 1968 e 1969. A excitação e o cansaço. O dia e a noite. O branco e o preto. O amor e a liberdade. François e Lilie. Não se furta em se interessar por tudo, pela experiência integral dos personagens, por uma aproximação radical, cintilante, como se não estivesse falando daquele momento a partir de uma postura de relato do passado (por isso mesmo, já consumado). O cineasta pede imersão total, jogando o espectador no olho do furação da excitação revolucionária de François e dos outros jovens da Paris de 68.

Para François a revolução, é antes de tudo, fome de beleza, mais do que a fome de pão, e para seu amigo Jean-Christophe, o revolucionário que acredita na ação, não na beleza, a luta é para sanar a fome de pão – como no início do filme, quando, em uma reunião de militantes, François fala da necessidade de publicar seus poemas e Jean-Christophe em ser pintor não de telas, mas de paredes, que por sua função prática e objetiva considera ser “a verdadeira pintura”. Ele é movimentado por uma razão pragmática, enquanto Louis, alter ego do diretor, é motivado pela beleza. Desse modo, a lógica do cineasta como “pintor”, como quer Philippe Garrel, é muito mais do que ser pintor de paredes (pra usar a comparação do filme): para o diretor, o preto e branco tem uma função maior que localizar aquela história no passado ou fazer disso artifício de busca de realismo (ou na contra-mão, de mero lirismo), mas convém transformar o preto e branco em formas puras, fazendo delas quase um trabalho abstrato.

O preto e o branco são as tintas de Garrel, tanto que é impossível pensar o filme de outra forma. E é assim que Garrel “pinta” Amantes Constantes: tudo é experiência estética. François vê Lilie a primeira vez nas barricadas, a segunda na casa de Antoine, o amigo burguês, quando decide falar com ela. Ai começa uma paixão que, mais do que mediada pelo desejo de revolução pessoal e coletiva, existe em estado puro. Da escultura (Lilie) e da poesia (François) a experiência estética passa a ser a da paixão.

Há uma coisa em Amantes Constantes que perpassa todo o filme e certamente é a questão central, tanto da arte, como da revolução, quanto do amor (que são os eixos aqui): a necessidade e a impossibilidade da permanência. O espírito de 68 ainda está em 69, mas muito mais do que uma mudança definitiva, 69 acena para uma mudança constante. Assim como o ano de 68, tudo acaba – resta saber então qual herança fica, ou mesmo se ela fica. Godard já falou que filmar é observar mutações, e nada responde tão bem a Amantes Constantes quanto essa afirmativa. Lilie e François são amantes que, em princípio, não se preocupam com o amanhã, já que a experiência é fruto unicamente do instante, não da memória, e não visa futuro. Mas o amanhã é inevitável. A pergunta de Garrel que fica é justamente a questão divisora de águas do filme na música dos Kinks (da virada de 1968 pra 1969) que diz “This Time Tomorrow, where will we be?”.

sexta-feira, 6 de julho de 2007

A MORTE DO FUNCIONÁRIO - Anton Tchekhov

Conto:

Anton Tchekhov

A MORTE DO FUNCIONÁRIO

"Numa noite encantadora, o não menos encantador oficial de justiça Ivan Dmitritch Tcherviakov estava sentado na segunda fila da platéia, contemplando, pelo binóculo, "Os Sinos de Corneville". Sentia-se no cúmulo da bem-aventurança. Mas, de repente... É muito comum encontrar-se, nos contos, este "mas, de repente". Os autores têm razão: a vida é tão cheia de coisas inesperadas! Mas, de repente, seu rosto enrugou-se, os olhos contraíram-se, parou a respiração... afastou o binóculo, inclinou-se e... atchim!!! Espirrou, conforme estão vendo. Não é proibido espirrar, seja a quem for e onde for. Espirram os mujiques, os chefes de polícia e, às vezes, os próprios conselheiros-privados. Todos espirram. Tcherviakov não ficou sequer encabulado, enxugou-se com um lencinho e, como pessoa educada, espiou ao redor, para ver se havia incomodado alguém com seu espirro. Chegou-lhe então a vez de ficar perturbado. Viu que um velhinho, sentado na frente, na primeira fileira, enxugava meticulosamente a calva e o pescoço com a luva, murmurando algo. E Tcherviakov reconheceu, naquele velhinho, o general civil Brizjalov, do Departamento da Viação.
- Eu o molhei! - pensou Tcherviakov. - Não é meu chefe, mas apesar de tudo, não fica bem. Devo desculpar-me.
Tossiu, inclinou o busto para frente e murmurou ao ouvido do general:
- Desculpe, Vossa Excelência, eu o borrifei... foi sem querer...
- Não faz mal, não tem importância...
- Perdoe-me, pelo amor de Deus... Realmente, foi sem querer!
- Ah, sente-se, por favor! Deixe-me ouvir a música!
Tcherviakov ficou perturbado, sorriu estupidamente e pôs-se a olhar para o palco. Mas, por mais que olhasse, não sentia a primitiva bem-aventurança. Começou a atormentar-se de inquietação. No intervalo, aproximou-se de Brizjalov, caminhou um pouco para um lado e outro, perto dele, e, vencendo finalmente a timidez, balbuciou:
- Eu o borrifei, Vossa Excelência... Desculpe... Com efeito... eu... não é que...
- Ah, não se preocupe... Eu até já esqueci e o senhor está sempre falando nisso! - disse o general e moveu com impaciência o lábio inferior.
"Diz que esqueceu, mas há maldade em seus olhos", pensou
Tcherviakov, olhando desconfiado para o general. "Nem sequer fala sobre o caso. Seria preciso explicar-lhe que eu não quis, absolutamente... que se trata de uma lei da natureza. Senão, vai pensar que eu quis cuspir nele. Se não pensar assim agora, chegará a essa conclusão mais tarde!...".
Em casa, Tcherviakov relatou à mulher a falha cometida. Pareceu-lhe que ela encarou o ocorrido com demasiada leviandade. Teve um susto, mas se acalmou, ao saber que Brizjalov pertencia a outra repartição.
- Mesmo assim - disse ela - você deve ir lhe pedir desculpas. Senão, vai pensar que você não sabe se comportar em público!
- Isso mesmo! Eu já me desculpei, mas ele se portou de modo estranho... Não disse uma palavra razoável, sequer. Além disso, não houve oportunidade de conversar.
No dia seguinte, Tcherviakov envergou seu novo uniforme de gala, cortou o cabelo e foi à casa de Brizjalov, para se explicar... Entrando na sala de recepção, viu lá muitos solicitantes e, no meio destes, o próprio general, que já iniciara o recebimento das solicitações. Depois de interrogar alguns dos presentes, o general dirigiu o olhar para Tcherviakov.
- Se o senhor se recorda, Vossa Excelência, ontem, no "Arcádia" - começou a relatar o oficial de justiça - eu espirrei e... involuntariamente, o borrifei... Des...
- Que tolice... Vá com Deus! E o senhor, que deseja? - perguntou o general, dirigindo-se já a outro solicitante.
"Não quer falar!", pensou Tcherviakov, empalidecendo. "Quer dizer que está zangado... Não, isso não pode ficar assim... vou-lhe explicar...".
Quando o general acabou de atender o último solicitante e dirigia-se já para o interior da casa, Tcherviakóv deu um passo em sua direção, murmurando:
- Vossa Excelência! Se me atrevo a incomodar Vossa Excelência, é justamente, posso dizer, sob o impulso do arrependimento!... Não foi de propósito, o senhor não pode ignorá-lo!
O general fez cara de choro e sacudiu a mão.
- O senhor está simplesmente zombando de mim! - disse, desaparecendo atrás da porta.
"Que zombaria pode haver nisso?", pensou Tcherviakov. "Não se trata de zombaria! É general, mas não pode compreender isso! Se assim é, não vou me desculpar mais perante esse fanfarrão! Diabo que o carregue! Vou escrever-lhe uma carta, mas não o procurarei mais pessoalmente! Juro por Deus!".
Assim pensava Tcherviakov, a caminho de casa. No entanto, não escreveu aquela carta ao general. Ficou pensando, pensando, mas não conseguiu redigi-la. Foi preciso ir explicar-se pessoalmente, no dia seguinte.
- Ontem eu vim incomodar Vossa Excelência - balbuciou, quando o general dirigiu para ele o olhar interrogador - mas não foi para zombar do senhor, conforme se dignou a dizer. Eu estava-me desculpando porque, ao espirrar, borrifei-o... mas, nem pensei em zombaria. Como poderia ousá-lo? Se formos zombar, quer dizer que não haverá, então, qualquer respeito... pelas pessoas...
- Fora daqui! - vociferou de repente o general, que se tornara azul e tremia com todo o corpo.
- O quê? - perguntou, num murmúrio Tcherviakov, empalidecendo de espanto.
- Fora daqui! - repetiu o general, batendo os pés.
Algo se rompeu na barriga de Tcherviakov. Recuou para a porta, sem ver, sem ouvir coisa alguma, saiu para a rua e caminhou lentamente...
Chegando maquinalmente em casa, deitou-se no divã, sem tirar o uniforme de gala e... morreu."

Anton Tchekhov - (1883)

quinta-feira, 5 de julho de 2007

-- René Magritte --



























"A mente ama o desconhecido. Ela ama as imagens de significados ocultos, desde que desconhecemos o significado da própria mente".

René Magritte


Amantes 1, amantes 2.....

victor ramon:Achei interessante!!!!

Gravatá?!



























Gostaria de dividir com vocês algumas cenas capturadas do meu último passeio ciclístico matutino pela vizinhança de minha casa. Ao tempo que o sol fazia sua parte, o vento frio marcava presença, tornando o clima interiorano de Gravatá agradavelmente peculiar e aprazível.
- Marcus T.

cs....COUNTER STRIKE....cs


















Victor Ramon say
:Fire in the Hole!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

COGUS



24 horas depois...

quarta-feira, 4 de julho de 2007

Richard Wagner : "O Drama musical como forma de Expressão"


Independente de suas posições políticas voltadas para o nazismo e de seu caráter extremamente autoritário e nacionalista, Richard Wagner sempre viu a música como um meio de manifestar estados emocionais e psíquicos e, encontrando no drama musical seu veículo ideal de expressão, compôs um número muito restrito de obras puramente instrumentais ou sinfônicas. A criação, o desenvolvimento e a influência da arte de Wagner só podem ser compreendidos se se aceitar que ele não foi simplesmente um compositor, mas um compositor de dramas musicais. E sua arte grandiosa, sutil e refinada faz apelo à psicologia, ao símbolo e ao mito. Sua tentativa bem-sucedida de conseguir a máxima profundidade, sutileza e rigor na expressão dramático-musical de sentimentos resultou em profundas transformações da técnica composicional, principalmente das óperas, que afetaram de forma significativa boa parte do desenvolvimento musical posterior.Toda a teoria contida nos tratados sobre o drama musical que Wagner escrevera, está exemplificada, em sua forma mais pura, no ciclo do Anel dos Nibelungos. Este é unificado por um sistema de "leitmotifs" (motivos condutores), espécie de refrões de harmonia e melodia, cada qual simbolizando uma pessoa ou idéia em particular, que se entrelaçam na textura musical para permitir que a platéia veja cada ação, ouça cada declaração, em seu contexto dramático e psicológico.O Anel dos Nibelungos, obra com 18 horas de música é constituída por quatro óperas interligadas: O ouro do Reno, A valquíria, Siegfried e O crepúsculo dos deuses.

"O sensualismo e a densidade de sua linguagem, bem como o movimento contínuo, são características que mais desconcertaram seus contemporâneos. Wagner renunciou à música dita absoluta para descobrir um absoluto maior e mais fascinante. Abandonou formas estabelecidas a fim de criar a unidade fundamental da obra, na qual cada momento funde-se com o seguinte e os motivos se metamorfoseiam de acordo com o contexto".(citação de Pierre Boulez).

se entorpeçam com suas belas obras!!!

Victor Ramon.

Ascendência de uma nova conduta

Amigos, eis um tema já tão cansativo a nossas discussões, porém, eis um ótimo texto sobre.

Moral e Ética sem Religião
Fernando Silva

Dizem que sem religião não haveria moralidade e tudo seria permitido. Mas a Bíblia permite a poligamia, a escravidão, o genocídio, a intolerância religiosa, o estupro e o abuso de crianças, logo estas devem ser práticas moralmente aceitáveis. Entretanto, proíbe o consumo de carne de porco e frutos do mar. E as outras religiões pregam coisas igualmente idiotas. Isto é moral? Como um ateu poderia ser pior do que isto? Além do mais, a história das religiões é uma longa história de violência e barbárie, das quais as Cruzadas e a Inquisição são apenas dois exemplos. Se nós hoje rejeitamos tudo isto, pelo menos na superfície, é porque aprendemos a pensar com nossas próprias cabeças, não porque as religiões nos tornaram melhores. Pelo contrário, fomos nós que forçamos as religiões a se tornarem mais humanas e tolerantes. Por que os 10 Mandamentos proíbem cobiçar a propriedade alheia mas não a escravidão? Qualquer ateu bem intencionado conceberia uma lista melhor do que a de Moisés, que trata basicamente de como os homens devem se prostrar diante de um deus egomaníaco.

O que pode ser dito a favor das religiões é que elas impõem um "pacote" de valores aos fiéis com conceitos básicos de moral e ética e que, na falta de melhor, em alguns casos, realmente ajuda a orientar as pessoas. Mas apresentam uma falha básica, ou seja, elas afirmam que é preciso ser bom e justo porque Deus assim o quer. Se fizermos a vontade dele seremos eternamente recompensados, caso contrário sofreremos um castigo eterno. A verdadeira virtude se baseia no exercício da razão, não na esperança de uma recompensa ou no medo de um castigo, o que em nada difere dos métodos usados por domadores de animais.

Se nós entendemos por que é preciso fazer isto ou não podemos fazer aquilo, nossa ética será muito mais forte do que a imposta por dogmas. Pelo contrário, como disse Feuerbach, "quando a moral se baseia na teologia, quando o direito depende da autoridade divina, as coisas mais imorais e injustas podem ser justificadas e impostas".

A lei básica da ética e da moral foi estabelecida séculos antes de Cristo. Uma de suas versões é a "Lei de ouro" (Confúcio, 500 a.C.): "Façam aos outros o que gostariam que lhes fizessem. Não façam aos outros o que não gostariam que lhes fizessem. Vocês só precisam desta lei. É a base de todo o resto". Outro modo de dizer isto é: não há pecado, não há um deus que premie ou castigue, há consequências. Cada um deve suportar as consequências do que faz.

Se uma criança de 2 anos bate em outra, a outra vai bater nela também. E a criança aprenderá que não convém bater nos outros. Esta é uma regra moral básica - e nenhum conhecimento religioso foi necessário para que a criança se desse conta dela. Da mesma forma, lobos e leões não devoram uns aos outros, ou já estariam extintos. São regras de convívio aprendidas por tentativa e erro. A elas chamamos moral. A maioria das crianças já tem seus fundamentos morais estabelecidos por volta dos 6 anos, pela experiência adquirida ao testar seus limites e por imitação dos adultos. Só mais tarde conceitos como Céu e Inferno começam realmente a entrar em suas cabeças - e distorcem tudo. A moralidade garante nossa sobrevivência e também torna a vida mais agradável. Ela é sua própria recompensa na maioria dos casos. Não precisamos de livros "sagrados" para entender isto, muito menos daqueles cheios de violência e ódio, como a Bíblia e o Alcorão. Não é um livro sagrado que deve nos dizer o que é certo, somos nós que devemos julgar se o livro sagrado e o deus que ele descreve são bons.

A Bíblia diz que Deus afogou toda a humanidade, exceto por um velho bêbado e alguns poucos de seus parentes, embora, como ser omnipotente, tivesse opções menos radicais. Reservou um território para um povo e o ajudou a exterminar os habitantes originais, inclusive crianças de peito ou ainda no ventre da mãe. Permitiu que seus protegidos estuprassem as mulheres dos vencidos. Se estes, e muitos outros episódios semelhantes, são exemplos do conceito de moral e ética divinas, como afirmar que um mundo ateu mergulharia na desordem e no crime?

Os critérios morais de Deus não requerem explicação. Está certo porque ele assim o definiu. Ateus são humanos e, como tal, imperfeitos, mas ao menos estabelecem regras de conduta com base na interação pacífica com o próximo, no mútuo benefício e na compaixão e não simplesmente "porque eu assim o quis". Entre ateus, a teoria está sujeita às necessidades práticas. Deus não tem tais limites. O que impede que ele decida dar a Terra a uma raça extraterrestre e a ajude a nos derrotar e devorar? Se tudo o que Deus faz é bom por definição, nossas definições de bem e mal não se aplicam a ele e teremos que aceitar seus atos ainda que nos pareçam absurdos e injustos. Se Deus é bom porque seus atos estão de acordo com um padrão externo e absoluto de bem e mal, ateus não dependerão dele para fazer o que é certo. Se os critérios morais de Deus são, por definição, incompreensíveis, então eles são arbitrários do nosso ponto de vista. E não temos como julgar se são bons.

Quando Deus faz algo de que gostamos, dizemos que ele é bom e justo. Quando ele faz o oposto, dizemos que é a vontade de Deus e que não nos cabe questioná-lo. Se ele sempre faz o que quer, nossos conceitos de bondade e justiça não se aplicam a ele. É apenas por acaso que seus atos às vezes nos agradam. Não conhecemos seus motivos e nem se ele tem algum padrão de ética e moral. Não temos como qualificá-lo. Como tomá-lo como modelo se não o entendemos e nem mesmo conseguimos prever o que fará?

Os crentes responderiam que Deus é complexo demais para ser entendido pela razão humana e assim devemos aceitar sua vontade sem discutir, ainda que nos pareça às vezes injusta e contraditória. Ora, a razão humana é a única ferramenta que temos para julgar as coisas. É através dela que escolhemos um entre os milhares de deuses e seitas existentes como a única verdade. Ou decidimos que os deuses não existem. Se Deus é complexo demais para que possamos julgar seus atos, então não temos como saber se são aceitáveis. Podemos até concluir que ele existe mas isto não implica em que ele é bom ou justo. Ou que ele saiba o que está fazendo. Talvez Deus exista (ou tenha existido) mas quem nos garante que é perfeito? Mesmo que ele nos apareça e assim o diga, por que devemos acreditar nele? Só porque é poderoso? Só porque procura nos convencer com promessas e ameaças? É lamentável que a humanidade se consuma em guerras em nome do que teriam dito deuses que ninguém jamais viu e dos quais tudo o que temos são lendas contraditórias criadas por gente como nós.

O ateísmo não destrói a ética, a felicidade e o amor. O que o ateísmo combate, na verdade, é a idéia de que a moral só é possível através de Deus, é a idéia de que amor e felicidade só podem ser conseguidos em um outro mundo.

Sem religião, as sociedades mais cedo ou mais tarde se darão conta de que ética e moral se justificam por si mesmas e não devido a vagas crenças em coisas não comprovadas. Seus valores serão baseados na razão e, portanto, muito mais sólidos. Pelo contrário, crenças religiosas nos permitem atribuir aos desígnios de uma entidade abstrata e omnipotente os problemas que afligem o mundo e nos tiram assim a responsabilidade de resolvê-los. Até mesmo grupos de chimpanzés e gorilas têm suas leis; sua inteligência, ainda que limitada, lhes permite reconhecer que, sem elas, a convivência não seria possível e o grupo se auto-destruiria.

Alguns podem se perguntar como seríamos hoje sem ter tido a religião ao longo dos séculos. Uma coisa é certa: milhões de pessoas não teriam morrido na fogueira ou torturadas. Civilizações e suas culturas não teriam sido arrasadas por serem pagãs. A ciência não teria se estagnado por tanto tempo (e mesmo regredido) por medo da fogueira. As mulheres não teriam sido afastadas de uma participação ativa ao lado dos homens nem tratadas como simples reprodutoras, o "vaso imperfeito que recebe o sêmen perfeito do marido".

Aquilo que nos parecem ser as contribuições da religião para o bem-estar e o progresso da sociedade foi, na verdade, obra de indivíduos e organizações bem-intencionados mais do que o resultado de uma crença religiosa. Somando-se tudo, é possível que o resultado ainda seja mais negativo que positivo

COGUS

Olha só o que nasceu na porta da minha casa. Que beleza!

Baudelaire


Embriaguem-se

"É preciso estar sempre embriagado. Aí está: eis a única questão. Para não sentirem o fardo horrível do Tempo que verga e inclina para a terra, é preciso que se embriaguem sem descanso.

Com quê? Com vinho, poesia ou virtude, a escolher. Mas embriaguem-se.

E se, porventura, nos degraus de um palácio, sobre a relva verde de um fosso, na solidão morna do quarto, a embriaguez diminuir ou desaparecer quando você acordar, pergunte ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo que flui, a tudo que geme, a tudo que gira, a tudo que canta, a tudo que fala, pergunte que horas são; e o vento, a vaga, a estrela, o pássaro, o relógio responderão: "É hora de embriagar-se! Para não serem os escravos martirizados do Tempo, embriaguem-se; embriaguem-se sem descanso". Com vinho, poesia ou virtude, a escolher."

- Charles Baudelaire

terça-feira, 3 de julho de 2007

"O Agir Musical"

Que bom poder compartilhar, ainda mais, nossos pensamenetos e objetivos de vida sem a presença de qualquer forma de restrição.
Aqui transmito um pequeno resumo de um diálogo entre Eu(Victor Ramon) e meu querido amigo Rodrigo Oliveira ,construído com a ousada função de definir o "Agir musical" como uma nova e mais evoluida forma de Expressão humana.

RODRIGO-hei...lembro bem quando tu me apresentou tua bela
coleção clássica, e essa descrição sobre o agir musical
sobre as emoções que nos tem aos prantos, as graças!

VICTOR-É exatamente essa a função que a música deve ter, pois essa forma de comunicação entre as pessoas(incluindo nós mesmos) se tornou, infelizmente, comprimida, no que diz respeito as expressões transmitidas pelos instrumentos musicais, por depender de uma forma de relação vocalizada que facilite a transmissão de certos sentimentos, que acabam limitando as expressões humanas.Eu acredito que o ato de impedir essas limitações emocionais advindas dessa comunicação direta (vocalizada) e a ação de expandir, de forma geral, o caráter emocional dos instrumentos musicais, são nossas responsabilidades diante de uma situação atual de tamanha escassez sensitiva para o Homem.

RODRIGO-condordo, com ardor dos meus anseios, sonorizados, tonalizados transitórios!!!! percebemos aqui por essa interação nossa "facilidade" de se entender e compartilhar determinadas questões, numa certa aptidão do pensar na escrita(tão limitada) sobre as emoções.

"Não sou um compositor que produz obras de acordo com fórmulas de teorias preconcebidas.Sempre senti que a música deve ser a expressão da completa personalidade do autor; não deve ser criada cerebralmente, com medida exata, para adequar-se a certos moldes preestabelecidos".

Rachmaninov.

Tal trecho complementa a definição do "Agir musical".



Dalí



"Every morning when I wake up, I experience an exquisite joy - the joy of being Salvador Dalí - and I ask myself in rapture: What wonderful things this Salvador Dalí is going to accomplish today?" - Salvador Felipe Jacinto Dalí

segunda-feira, 2 de julho de 2007

Um peixe doce e bola.


(Se fossemos criar uma sede para os peixes-bolas(doces), em minha opinião, ela seria construída "ai", na Serra do Maroto. Exatamente naquele pico onde nós bem conhecemos e onde vivemos alguns vários momentos bem "vivos", não obstante um pouco anestesiados.)

"...
Um dia, um peixe-bola.
Outro, um peixe-doce.
Peixe-doce-bola
ou peixe-bola-doce?
Peixe-doce-bola.risado,
risada!
Peixe-bola.dor,
bolado.
Tá bolado?
Bora.
Tá doce?
Então bora, bola.risado!
Risada.
Bora agora?
Bora, bola.
Oui, maintenant monsieur."


- Marcus T.oiez -