"Enquanto não conseguirmos suprimir qualquer uma das causas do desespero humano, não teremos o direito de tentar a supressão dos meios pelos quais o homem tenta se livrar do desespero."
Antonin Artaud

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Furtar ao tempo o instante

Aqui, quero fazer algumas considerações sobre a falta de tempo, sobre as inversões que vieram com nossa contemporaneidade, que implicaram tanto nas cabeças, nos mundos, no espírito da humanidade que parece não saber de onde veio nem pra onde vai, caindo apenas em plasticidades e atingindo apenas a superficialidade dos corpos e das tecnologias que deixam os humanos cada vez mais beirando a estupidez.
Talvez a leitura e a compreensão destes poemas que seguem falem bastante desse tema que venho a pôr.
Manuel Bandeira certa vez escreveu:


Vou-me embora pra Pasárgada


Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei


Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d'água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar


E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.


E então, um poeta contemporâneo, Hagner Hyngner, que acabei de conhecer através de outro poeta amigo, escreve:

Vou-me embora pra... só Deus sabe onde.
Aqui não tenho amigo nem rei , Nem a mulher que quero
Na cama que me deitei
Vou-me embora pra... só Deus sabe onde

Vou-me embora pra... só Deus sabe onde
Aqui eu não sou feliz , onde eu moro a existência é uma falácia
de todos os modos inconsequentes que qualquer garçonete, rainha ou demente
Pode ser até parente dos filhos que já tive
O que eu queria era um carro ao invés de uma bicicleta
queria uma rede, ao invés de tanto trabalho
mas, só me sobrou o mar
E depois de tanto cansaço sento na mesa de um bar mando chamar Irene pra me contar umas histórias
Que no tempo de menino Neide não teve tempo de contar.

Tem prostitutas bonitas
Ah, como tem... Pra gente se endividar
É assim que ando, triste, que triste assim não tem jeito
E de noite me dá vontade de matar -
Aqui não tenho amigo nem rei -
Aí sim, terei a mulher que quero
pra cama que me deitei
Vou-me embora pra... só Deus sabe onde
Peraí... E tem Deus?



Talvez já esteja tudo dito, e quem está atento não queira se prestar muito a textos. Muito porém, uma poesia verdadeira, por mais simples que seja, se atinge a linguagem da arte, traduzindo o cotidiano por gestos ou caminhos não-cotidianos, é sempre válida e deixa algo no leitor que está ainda atento para o que se passa na sua frente. E, aliás, deixo uma poesia de um cara chamado Rogério Skylab, que apesar do seu rock bobão-demente, conseguiu traduzir em uma simples poesia esse mundo contemporâneo que nos amarra os pés e nos furta o tempo:


Radinho de pilha

Num lapso de instante...
Como quem lê um livro
entre duas estações...
Escrevo rápido pra não dar na pinta.

Escrevo como quem rouba.
Sem chamar nenhuma atenção.
Como quem fabrica uma bomba.
No meio do serviço, sem que ninguém me veja,

eu escrevo nestes segundos fugidios.
O que me coube neste mundo, heim?
Furtar ao tempo o instante.

Encosta o ouvido.
Estamos na época da alta definição.
Escuta esse radinho de pilha.







marcus.
ainda indignado com o espírito forçado e superficial natalino contemporâneo.

2 comentários:

Anônimo disse...

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