"Enquanto não conseguirmos suprimir qualquer uma das causas do desespero humano, não teremos o direito de tentar a supressão dos meios pelos quais o homem tenta se livrar do desespero."
Antonin Artaud

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Um Toque na Baleia

Um Toque na Baleia

O que se seguirá não ultrapassa o campo da tentativa de descrição de um momento percebido num tempo que não pára. Aliás, que parece parar com o auxílio de algo que denominamos arte, neste caso específico, a arte da fotografia. Quando de um momento perdido no tempo, na vida das pessoas, seja por sensibilidade ou por acaso, captamos e eternizamos numa fotografia tanta existência compilada em uma única imagem, que é tão potente de vontade, de vida, de arte.
O poder de parar o tempo. Além da fotografia, a pintura compartilha de tal propriedade sensível. Também a literatura, o cinema e, porquê não, a música, a narração oral e tanto mais. Para não me estender neste "prefácio", nesta introdução explicativa que visa situar o meu relato, inicio-o:

Presenciei ontem uma bela e singular cena ao mostrar para minha mãe as últimas fotos que revelei. Em meio a estas fotos, algumas me fizeram parar e pensar o quanto uma pessoa pode, a partir de uma busca consciente, desenvolver e encontrar habilidades antes pretendidas, que por um momento, são alcançadas, tocadas.
O momento que quero descrever - e não consigo fazê-lo por completo, pois talvez o meu poder de narração seja um tanto limitado, ou mesmo talvez o poder de narração escrita não alcance completamente o seu intiuito de repetir e eternizar o momento chave inicial - é o momento em que minha mãe, passando nas maõs as fotos expostas, chegou a foto da minha avó (uma foto de um rosto de quase 88 anos, de perto, enquadrada do lado direito da fotografia. Uma foto do olhar carregado de quase 9 décadas de vida, de pele, de tempo, de alegria e realidade, de gravidade e beleza) e neste momento vi minha mãe, que olhava com atenção a foto, lacrimejar. Olhou para mim, disse: "acho que eu vou chorar" e rapidamente voltou a olhar para a foto como se ali houvesse um túnel, um portal para um mundo tanto desconhecido como conhecido que existe compilado a partir de toda uma vida de um ser humano como aquele que morava ali naquela imagem, tudo reunido num só olhar, num só momento, captado pela fotografia, tudo enternizado ali.
As lágrimas de alegria e de realidade da filha que olha, vê e percebe o que uma fotografia pode proporcionar. Essas lágrimas e essa sensibilidade me tocaram. Fiquei orgulhoso da arte que não é minha. Que depois de tanto buscá-la, discuti-la, refleti-la, por um lapso de segundo a percebi e a senti em minhas mãos. A arte que paira sobre tantos, há tanto tempo. Onde o momento é percebido, o obturador da máquina fotográfica é pressionado e então tal momento é eternizado naquele rolo de filme-negativo que está guardado na caixa escura deste instrumento tão belo, tão capaz.
Minha intenção é dividir este sentimento de completude que existe quando percebo a arte como uma baleia, a quem tanto procuro e sobre quem tanto penso, discuto, sonho. O momento em que a baleia passa perto de mim, onde posso acariciá-la por um segundo e ela se vai, nadando em águas escuras e desconhecidas. Até que percebo que esta baleia pode atender por um chamado o qual ela nos ensina paulatinamente e aprendemos também aos poucos. Por vezes, pode chegar perto de nós, dar uns pequenos momentos de atenção e ir-se novamente, errante e genial, como uma baleia, como um fio enorme de arte.


marcus de barros.

2 comentários:

Gilson disse...

Bonita comparação a da baleia "nadando em águas escuras e desconhecidas". O rosto de uma essoa idosa é como um livro de muitas estórias.

Viver e fazer arte
Buscar por beleza e verdade
Sublimação da própria vida
O humano mais que humano
Sedento por um encontro consigo mesmo
De reconhecer-se no outro, na vida
De reconhecer o belo em si, nós mesmos
Com olhos-de-beleza
Fixados no grande espelho do mundo
Sentindo e criando
Perdendo-nos de nos mesmos, liberdade
Surpreendidos pelo novo, renovação
O caos de ser
A arte de ser
O nada de ser
Mas sendo...

E o que mais de uma existência poderia se esperar? Jesus Cristo?

Rodrigo de Morais disse...

eu fico imaginando a emoção no momento dessa bela cena, que trouxe num “capturado” uma retrospectiva íntima recheada de muita intensidade aos olhos da platéia mãe-Ceiça. E nisso tanto a emoção daquele que canaliza as emoções, no caso do artista, quanto daquele que as recebem como telespectador, platéia, observador, complemento desse circulo da arte.

"deste instrumento tão belo, tão capaz." Só posso dizer ter me encontrado a cada click a mais em meio a esse todo em minha volta. Esse todo que me despertam idéias e vontades a cada piscar de meus olhos-de-obturador. Emociono-me com o mundo. Sempre que olho para cima, vejo muita beleza no mundo além dos meus olhos, do mundo além de meu toque, e que apesar de tudo estou eu fixado nele, e de quando em quando espero fazer de minha vida uma “captura” daquilo que me emociona, daquilo CAPAZ de emocionar. Começo todo dia, através de tudo, e daquilo que me atravessa em emoções, a querer mais e mais estar adentrando as formas de gravar, congelar, enquadrar.

Rodrigo